Nota de Óbito

sábado, setembro 03, 2016



Crônica escrita em maio de 2016.

Perdi um amigo.

Ele se foi há alguns dias. Sua última mensagem visualizada foi mês passado. Em nossa última conversa, não me despedi corretamente. Foi tudo rápido demais. Jamais esperaria. A vida é brusca de forma cruel.

Causa da morte? Um mal súbito. Do nada. Cruel.

Do nada os laços foram rompidos, os assuntos acabaram, o interesse desapareceu. Inicialmente, todos pensaram ser uma ou outra virose de ciúme ou uma crise nervosa de abandono, mas não. Foi da mesma forma difícil não procurar a culpa em mim. No fim, entretanto, a coisa toda foi bem natural e  espontânea. Uma pena que nada houve o que pudesse ser feito.

Em pouco tempo, um enterro foi organizado. Era o mais certo a se fazer. O corpo não poderia ficar simplesmente lá, esperando. Não havia mais nada lá para esperar. A parte mais importante já tinha ido embora. O que importava era o fôlego, e fôlego já não saía de suas narinas.

A visão ainda é clara em minha mente. Ele estava lá, ao meu lado, frio. Frio como nunca imaginei que pudesse ser. Seus olhos não me viam e seu cérebro não me reconheceria outra vez. Tampouco abriria a boca para me dizer qualquer coisa. O que eu queria, afinal? Ressuscitar mortos? Não possuímos todas as capacidades que pensamos possuir -- e eu preciso ser relembrada disso constantemente.

Era hora de dizer adeus. Não um adeus para aquele corpo sem vida que eu via diante de mim, mas adeus ao meu velho amigo que existia ali antes de desaparecer. Eu nunca mais o verei.

A chuva caía e eu me demorava ali mais tempo que o necessário. Eu simplesmente não tinha vontade de ir embora. O mundo parecia sem graça demais para retornar. Me virei para os outros presentes. Ali estavam também alguns amigos em comum, conhecidos e outros traunsentes. Recebi uns tapinhas nos ombros daqueles que ainda estavam vivos. É reconfortante saber que ainda os tenho aqui. Disseram que eu não deveria fixar meus pensamentos nisso. Essas coisas acontecem. Pessoas morrem. E você nunca pode imaginar o que na terra poderia causar um mal súbito em alguém que nos parece tão saudável e normal vinte e quatro horas antes.

Sei que eles têm seu fundo de razão, e um dia balançarei minha cabeça em concordância, carregando comigo a leve impressão do que uma vez fora um sentimento. Mas, naquele momento, eu não poderia fazer outra coisa além de fixar minha mente no que estava acontecendo enquanto o caixão descia ao seu novo lugar de descanso. É o tipo de coisa a qual você não se acostuma, não importa quantas vezes se repita durante sua vida. Você simplesmente não se acostuma a perder amigos.

Cheguei em casa e escrevi... isso. Minha despedida correta. Ele com certeza jamais a lerá, mas a deixarei em seu túmulo da mesma forma. Poderá sentir o leve peso sinalizando a presença do papel, porém sem alguma vez entender o que ele quer dizer. Sentirá o que sinto agora.



No outro dia, comentaram comigo -- talvez numa tentativa azarada de me animar -- que cientistas estão buscando desenvolver a pílula que reanimaria mortos. A pílula, também brusca e cruel à sua maneira, prometeria trazer meu amigo de volta com pequenas doses de conversas casuais e vazias, coincidências que nos obrigariam a se cumprimentar e alguns meio sorrisos assemelhados a espamos que nada realmente queriam dizer, mas talvez provocassem o efeito reflexo. Pequenas ações, assim, retirariam meu amigo de seu atual estado imóvel para alguém que já responde com o mínimo de consideração.

Agradeci o esforço de meus benfeitores, mas fechei o artigo com o ódio de quem quer esmurrar a parede. Não, não quero soluções rápidas e eficazes. Rápido e eficaz já foi o mal súbito que levou meu amigo. Depois, não o quero como um projeto de zumbi. Rígido, desconfortável, faltando pedaços. Sem contar o risco de me ferir de novo. Completamente impraticável.

Deixe as coisas como estão. É um processo lento e difícil, mas muito eficiente em sua natureza. Breve,  restará o silêncio. E o silêncio me ajudará a manter as melhores lembranças de nós -- o contrário do que faria um zumbi inútil tentando devorar o que restou de mim.

Descanse em paz.

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