Então hoje meus pais e eu decidimos conhecer as cidadezinhas
que circundam Toledo.
Procurando por um primo do meu pai (nosso sobrenome é
difícil de ver por aí, rsrs), acabamos em Santa Helena. Toda pequenina, toda
ajeitadinha. Aquelas ruas largas, floridas, com lojinhas de roupas misturadas a
sorveterias e mercadinhos, cujos donos ficam sentados nas portas em cadeiras de
praia observando as largas ruas quase vazias. E esse padrão se repetiu nas
outras pelas quais passamos durante o caminho.
Tem sol, mas tem vento. Tem sol, mas tem sombra. Tem sol,
mas tem chimarrão.
Pelos últimos quatro anos, morei no MT por motivos mais
fortes que eu. Por mais que muita gente consiga se adaptar aos lugares e
culturas novas para que se mudam, eu não consegui. Foram duros quatro anos
vivendo sob uma temperatura que não me fazia bem, numa cultura que não era a
minha e dentro de uma casa na qual eu não me sentia em casa. Pela primeira vez,
aos meus dezesseis anos – lá para 2013 –, precisei admitir que sentia falta do
meu lar. Do meu estado. Das coisas que tinham cheiro de infância e que
combinavam com as minhas memórias.
Precisei admitir que, apesar de todos os pesares possíveis,
eu tinha um lar... e eu não estava mais lá.
É claro que minha vontade era voltar, mas a vida gosta de
dar suas voltas e acabei parando alguns quilômetros antes de onde eu vim,
estacionando aqui mesmo, no Paraná. Aqui onde eu nunca poderia imaginar que
pararia. Embora não tivesse aceitado tudo tão bem no começo por pura teimosia,
agora começo a perceber que gosto daqui. Se parece com minha cidade em muitos
aspectos e não tanto em outros. Mesmo assim, diferente do Mato Grosso, eu não
sinto vontade de fugir. Eu sinto uma pequena vontade de ficar.
Pequena e crescendo. Hoje, caminhando por calçadinhas
coloridas e visitando familiares desconhecidos, peguei-me pensando nisso. Não é meu primeiro lar. Nunca será como
ele. Mas eu quero fincar estacas aqui. Passei tanto tempo focando em retornar
para minha antiga cidade que nunca pensei que poderia realmente encontrar esse sentimento
de se “pertencer” em outro lugar. Como uma segunda casa, depois de muito tempo
como andarilha expatriada. É novo. Oferece novas oportunidades. Livre de
memórias desgastadas. E pode perfeitamente viver em harmonia com a minha terra
natal.
Resumindo, aprendi três coisas hoje.
Permita-se sentir falta da sua casa.
Deixar o ninho, literal ou metaforicamente, é um processo
pelo qual todos nós vamos passar em alguma altura de nossas vidas. Alguns de
forma mais intensa que outros. Nem por isso você deveria fechar seus olhos com
raiva e gritar para os quatro ventos, “ó mundo, revele-me seus segredos, pois
sou um ser humano desapegado e pronto para conhecê-lo!”. Não. Isso não existe.
A não ser que você odeie muito o lugar de onde veio – embora, nessas condições,
acredito que haverá algum lugar que você considerará um lar substituto e
sentirá falta dele quando tiver que partir. O ponto é: não finja que não dói.
Não banque o durão ou a durona. Não diga a si mesmo que suas
lembranças de criança brincando na terra ou o cheiro da padaria perto da sua
escola ou as músicas bregas que seus vizinhos escutavam não importam mais ou
não fazem diferença na sua vida. Elas são parte de quem você é. Cada detalhe do
lugar onde você cresceu o afetou e o tornou a pessoa única que você é hoje.
Casa sempre terá sua aura de casa. Não importa se é mesmo uma casinha com
jardim, um apartamento apertado numa cidade grande ou aquele posto colorido por
onde você passava quando estava sempre viajando com seus pais. Ou o caminhão
deles. Não importa. É parte de você. Não a esqueça.
Procurar um novo lar não é errado.
Como dito, chegará a hora de partir. Você sentirá a saudade,
já que se permitiu isso. Mas... a vida é uma surpresa constante. Pelo caminho,
um novo lar surgiu. Seja por pura coincidência ou porque você esteve mesmo
procurando por ele: ele apareceu. Não se sinta mal por isso. Se seu apego ao
seu primeiro lar é grande, é normal que isso aconteça. Mas não, não há razão
pra isso. O mundo é grande demais e a vida é curta demais para ficar em um só
lugar para sempre. Conheça, explore, experimente. Talvez você descubra que se
encaixa melhor aqui do que lá. Mistérios... desvenda-os.
Nenhum lugar será como nosso lar. E isso não é uma coisa ruim.
Ah, esse clichê. Coloca nossa terrinha natal acima de
qualquer lugar no planeta. Justo, diria. Mas não tão absoluto quanto a frase
quer fazer soar.
Você andou por aí até se ver diante de um novo lugar.
Fascinou-se por ele. Mesmo assim, manteve em mente que ele é diferente.
Perfeito. Você não pode esperar as mesmas lojas, aromas, pessoas e costumes que
você conhecia. Aqui você é um migrante. Veio de fora. Um novo alguém. Essas
pessoas nunca o viram e você nunca as viu. Ou seja: um rio de oportunidades
aguarda que você pule dentro dele.
Hora de tentar de novo o que não deu certo antes, ainda lá.
Ou então tentar algo totalmente inédito. Renovar-se. Aproveite o que essa
cidade lhe oferece de surpreendente. Assuma os riscos. Aprenda. Talvez aquilo
que você jamais aprenderia em outro lugar.
Quando você sentir falta de um mundo que lhe soe familiar, é
só voltar para casa. Ela sempre estará lá... e também dentro de você. ;)
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p.s.: ah, Feliz Dia dos Pais para todos os que já encontraram seus lares e também para aqueles que ainda estão procurando.
- domingo, agosto 14, 2016
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