O Post Perfeito

terça-feira, agosto 09, 2016


Manter um blog é uma ideia que me retorna à mente o tempo todo.

Parte de mim acreditava que depois de tantas tentativas furadas – que tiveram início faz um tempinho, lá pelos meus doze anos – eu já deveria ter desistido. Não seria uma novidade, uma vez que desisto fácil de quase tudo. Mas, com a escrita, a mágica é diferente. Explicação pura e simples: a escrita é sempre uma novidade. É sempre uma floresta que revela outra clareira. É sempre essa escadaria em espiral que abre uma nova paisagem a cada degrau superado. É sempre essa melodia com variações distintas e, ainda assim, familiares.

E é sempre a forma que eu acabo me expressando, de uma maneira ou de outra.

Foi pensando nisso que, em uma madrugada após um dia exaustivo de provas e ouvindo músicas antigas do 3 Doors Down, decidi que era um bom momento para tirar o pó da minha conta no blogger e tentar de novo. Endireitei-me na cama, de frente pro meu notebook e escrevi. Talvez umas duas mil palavras. Eu só precisava escrever. Faz bastante tempo que fiz isso pela última vez. Três anos, pra ser exata.

Costumava escrever todos os dias. Era quase sagrado. Aos quinze, minhas fanfics eram meu maior tesouro. Minhas crônicas. Minhas poesias. Mas, como tudo na vida, algo deu errado. A vida deu errado. O céu fechou pra tempestade e eu me molhei nela. E molhei tudo o que eu escrevia. Tudo perdeu a graça. Eu não encontrava ânimo para desenvolver personagens em cenários e diálogos quando mal tinha ânimo para levantar da cama pela manhã.

É claro que as ideias voltaram. Nunca se foram, de fato. Mesmo me arrastando, me agarrei a uma delas. Criei os personagens, a trama, o cenário e continuei desenvolvendo-a até o dia em que estivesse pronta novamente para escrever. Bem... esse dia não chegou. Quem parou no tempo fui eu. Esperando o céu abrir de novo. Esperando luz do sol pra escrever, quando, na verdade, eu poderia ter acendido uma vela.

De lá para cá, o céu se abriu e fechou várias outras vezes, mas eu não necessariamente voltei a escrever. O medo já tinha me pegado. Não foi por mal. Eu só queria que tudo estivesse perfeito, mas nunca estava!

Ok. Uma hora a ficha caiu. Ela caiu quando bateu a saudade de escrever. Saudade em forma de avalanche. Uma agonia. Pra quem só escrevia no computador, o caderno, o bloco de anotações e até o celular tiveram que servir. Tinha muita coisa dentro de mim implorando pra sair e eu não deixava. Estava esperando a chuva passar. Estava esperando a perfeita inclinação da luz solar sobre a folha de papel para começar. A inspiração.

Tive que entrar em um acordo comigo mesma: eu precisava voltar a escrever, fosse lá o que fosse.

Minha história não poderia ser. Quero transformá-la em livro, por isso continuo planejando. Um trabalho delicado. Escrevê-lo nas condições em que me encontrava seria como pintar uma porcelana com um martelo. Tinha que ser outra coisa. Algo em que pudesse ser rápida e sincera, sem pensar em plots ou estrutura. Tinha que ser como uma pílula e não uma refeição completa.

Tinha que ser um blog.

Nada demais. Eu só teria que colocar minha cara na web de novo desde os meus catorze anos sem me esconder atrás da narração de uma moça do início do século vinte que nunca existiu. E qual a temática? Ah, sei lá. Minha vida. Aquela mesma. Que deu errado. Que nem eu entendia. Que eu realmente queria que fosse perfeita, mesmo sabendo que isso nunca aconteceria.

Isso foi ainda ano passado. Decidi esperar mais um pouco. Eu estava uma bagunça. Transição do ensino médio para uma faculdade incerta. Morar em um lugar novo. Conhecer pessoas novas. Sair de casa. Tudo isso ao mesmo tempo em que minha vontade de escrever me pressionava. Certo, pensava. Vou escrever.

Meu computador é cheio de artigos dessa época. Textinhos que ficavam escondidos esperando o dia em que tudo ficaria bem e, só então, quando tudo estiver bem, volto a criar um blog.

Minha vida se ajeitou aos poucos. Mudei. Entrei para a faculdade. Morei sozinha por loucos três meses. Mas nem tudo estava certo ainda. Por certo, entenda como eu queria. Ainda assim, naquela madrugada que iniciava o dia treze de abril, algo tinha mudado. Algo na minha cabeça tinha mudado.

Cansei de esperar. Eu precisava escrever. E continuei escrevendo aquele post gigante noite adentro, só pra descobrir, logo pela manhã, que, talvez, as coisas não deveriam ser feitas daquela forma. E que aquele post era uma bosta.

Para alguém tão enferrujada quanto eu, planejamento seria necessário. Hey, e eu sou boa nisso! Comecei a preparar o caminho. Ensaiar tudo. O céu não queria clarear? Tudo bem. Instalei lâmpadas por tudo. Ajeitei tudo. Eu não ia sofrer mais pela escuridão. Continuava chovendo? Ótimo! Melodia numa noite silenciosa – inspirador. As coisas não eram perfeitas, mas eu ia torná-las quase isso.

Agosto. Dia 9. Um mês que pra mim significa mudança. E o meu número favorito, por ser o último estágio antes de um algarismo redondo. É esse o dia.

Planejado. Acertado. Porém, ainda faltava uma coisa: o primeiro post.

Pensando muito, decidi deixar para o grande dia. Uma coisa bem espontânea. Às 23:30. Lovestrong. da Christina Perri estourando nos meus ouvidos. Pra ser sincera, eu nem sabia o que escrever, mas tinha uma sensação de paz e esperança me preenchendo. No meio da tempestade, eu fiz uma cabana. E voltei a escrever aqui mesmo. Depois de tanto tempo.

Opa. Parece que acabei de dar uma nova definição à palavra “perfeição”. E eu gostei dela.


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P.S.: bem-vindo ao Meia Ironia! C:

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